Estrelas

Há tanto brilho no chão do banheiro que me parece até um céu estrelado.  Infelizmente não são estrelas, pois elas não visitariam meu banheiro.  Tomo cuidado para não dar um passo errado e sujar de sangue esse tão magnífico chão celestial.

Mal abri os olhos novamente e estava na cama, soluçando.  Finalmente o fim de uma era aproximava-se e eu temia pelo término, porém temia ainda mais o recomeço.  O acostumar-se com novidades não tão novas assim.  As estrelas permaneceram no banheiro assim como sua beleza e esplendor.  Agora estavam comigo, lágrimas e soluços sem fim.  Perdia o fôlego, chorava, tossia e me perdia em pensamentos irregulares.  O espelho já me mostrara antes, um palhaço sem maquiagem, com olhos e nariz vermelhos e um sorriso falso.

“Como deixara-me levar?” perguntava ansiosamente, como se a pergunta de tão profunda merecesse uma resposta divina.  No entanto, eu estava só e não tinha mais ninguém ali para responder-me qualquer pergunta que fosse.

Uma hora o choro cessou.  As lágrimas simplesmente não vinham mais.  Sentei no canto da cama na mais plena escuridão e ainda soluçando alcancei o maço de cigarros e o isqueiro.  Risquei uma, duas, três vezes até a chama aparecer.  O cigarro foi perdendo forma, virando cinzas, lentamente enquanto enchia meus pulmões de fumaça até não mais aguentar.  Soltei o ar e vi a fumaça espiralando, expandindo e contraindo e tomando o espaço do meu quarto semi-iluminado.

Não tinha cinzeiro.  Marquei na pele o fim do cigarro e o fim daquela história.  Um dia talvez a memória perdesse brilho ou até mesmo desaparecesse, mas a dor que sentiria cada vez que passasse minha mão naquela marca relembraria-me de tudo.  Me falaria sem argumentações para nunca mais me deixar levar por palavras belas, canções de amor e sentimentos vãos.

A marca não me deixaria esquecer do chão estrelado.

O brilho

Tic. Tic. Tic.  O relógio acima do gaveteiro marcha com sua formalidade agressiva.  Meus olhos fechados, minha cabeça enterrada nos lençóis e cobertores e o ar quente de minha respiração em sintonia com o relógio agressivo.  Tic. Tic. Tic.  Aqueles de camelô, quadrados. Meu pai tinha um parecido, eu mesma usei-o para me acordar nas manhãs cinzentas e correr pro colégio.  Levantar, encaixar a peça plástica preta para fazê-lo parar com o “pipipipi” incessante e voltar ao tic tic tic de sempre.  O instante se resume a essa memória e o ar quente e os cobertores e meus olhos fechados e meu coração martelando na mesma marcha do relógio.

 

Sento-me na cama.  Meus olhos estão inchados e minha cabeça ainda dói.  O quarto está dolorosamente claro para as 00:56 da noite.  Sinto a boca seca, o nariz congestionado.  Há vozes no quarto ao lado, risos.  Sorrio.  Desvencilho-me dos cobertores e ponho meu pé no chão frio, me arrependo e tiro.  Tic tic tic faz o relógio em desaprovação e eu procuro minhas pantufas.  Elas estão surradas, mas continuam quentes como no dia que as comprei.   Olho o celular, percebo várias mensagens que com certeza não estão falando do que eu gostaria que estivessem falando e o jogo no canto da cama.  Levanto e observo a bagunça do ambiente.  Mal cheguei e já decorei o quarto com minha habitual liberdade questionável.  Água. Isso vai ajudar, certamente.

 

A torneira faz um barulho irritante, de plástico com plástico, de nada com nada.  A água cai na pia barulhenta e eu coloco o copo sob a torrente transparente do líquido, molhando minha mão (gosto de viver perigosamente).  Bebo lentamente, enchendo a boca, permitindo que cada canto dela seja tocado pela água fria, permitindo que esquente dentro de mim, que escorregue pela minha garganta e que possua meu corpo.  A cabeça pulsa de dor.  Os bicos de meus seios estão enrijecidos debaixo da camisola e os pelos de meus braços estão arrepiados como nunca estiveram.  O frio me faz sentir viva.  Vou ao banheiro arrastando os chinelos, como se cada passo gritasse “não quero me mexer”. Tic tic tic. Passo perto do relógio e percebo que continua sua ladainha puritana, reclamando de meus excessos noturnos e lembrando-me que amanhã acordo cedo.  Entro no banheiro, ligo a luz e me arrasto até o assento da privada.

 

Olho pro teto enquanto mijo, calcinhas no meio do joelho como quando era criança.  O sentimento volta.  O relógio não para, mas eu continuo presa nesse emaranhado de palavras que teimam em permanecer na minha cabeça.  Não existem mais lágrimas para chorar.  Minha cabeça dói e meus olhos ficam mais vermelhos do que já estão e me pergunto: “Já não bastam os últimos dias?”.  Olho as cicatrizes que adornam meus braços, passos os dedos em seus relevos dolorosos e em queloides cheios de memórias.  “Uma mulher tão bonita” teima minha vó em repetir na minha cabeça, repreendendo-me e impulsionando-me a ter mais dessas companheiras.  Não sinto nada.

 

Sentir nada é como viver numa bolha.  Observar uma festa de casamento muito animado sem ser vista, beber um vinho sem sentir o zest adstringente que nos fecha a boca e infla as narinas.  Não sentir é não viver.  Não viver estando viva é como caminhar pelo inferno na terra, tendo noção de que o mundo continua enquanto você grita sem ser ouvida, festeja enquanto você definha.

 

Não sei quanto tempo faz que terminou o xixi, mas percebo que meus dedos estão arroxeados do frio.  Limpo-me, visto-me e levanto-me mecanicamente.  Passo reto pelo espelho desde que percebi que não reconhecia a pessoa refletida ali e volto ao quarto ouvindo o sempre tão desagradável tic tic tic. Paro na soleira do banheiro e observo um pequeno vazio em mim. O vazio aumenta à medida que permaneço ali. Cada batida do coração parece aprofundar e aumentar e me tragar em um redemoinho de sangue e de lava.  Me vejo sendo puxada pela força do líquido, meus pulmões enchendo com o sangue que engulo enquanto meus olhos esbugalham procurando uma saída e minhas pernas falham por câimbras de tanto nadar.  Não existe saída.  Nado em círculos olhando para cima, mas o poço é infinito e as paredes muito lisas e o fundo muito convidativo.  É o desamparo.

 

E o sangue é quente demais, denso demais, ferroso demais.  Meus pulmões estão cheios dele e consigo me ver, imóvel, caindo lentamente para o fundo do poço que torna-se meu túmulo; mas não, estou no meu quarto, estou viva.  Respiro, mesmo com os pulmões cheios de nada e caminho, mesmo sem rumo.  O relógio continua com seu tic tic tic e a vida continua mesmo para quem está dentro da bolha que separa os vivos dos vivos-mortos.  Abro a janela e sento-me no parapeito, acendo um cigarro e dou uma longe baforada enquanto olho para as estrelas.  Elas, que mortas, continuam brilhando, observam a nós, que morremos e desaparecemos sem deixar um brilho sequer.  O cigarro vai queimando aos poucos e eu permaneço imóvel observando o céu noturno quando o encanto é quebrado por um grito acima de mim.  Olho e pasma percebo um corpo caindo e se quebrando no meio da calçada ao som do tic tic tic; o sangue se espalhando, os membros tremendo, pessoas gritando.  Eu termino meu cigarro, jogo a bituca fora e fecho a janela com um baque surdo.

 

Ser Um e Inteiro

O coração era forte, mas o corpo definhava lentamente sobre a cama com lençóis brancos, milimetricamente arrumados sobre o colchão velho.  O suor corria pela pele trêmula, os gemidos e a respiração curta entrecortavam o ar.  O cheiro de doença e morte flutuavam como poeira no ar velho do quarto pequeno.  Os poucos cabelos brancos estavam molhados e colados à testa do homem sôfrego.  Ele tenta abrir a boca uma vez, a dor o impede, mas mais uma vez ele abre a boca e lentamente pede para que entrem.

Os três homens entram pela porta.  O maior, negro como a obsidia, mantinha a porta aberta enquanto olhava com os olhos espremidos expressando raiva.  O mais gordo entrava olhando para o chão, com sua pele cor de oliva e seus cabelos raspados.  O mais novo esperou à porta, e seus cabelos vermelhos refletiam no seu rosto à luz branca forte do quarto mas entrou depois de uns segundos.  A cama branca com o velho estava agora com os filhos à sua volta, como crentes em direção ao altar de seu deus.  De lá receberiam as instruções daquele que tudo poderia lhes dar ou tirar, daquele que os havia dado vida.

— O seu velho pai está morrendo…

— Não fale assim.  Sempre tem uma maneira, a medicina hoje pode fazer milagres. —  O mais novo falou com um sorriso compreensivo no rosto.  O gordo olhou para ele de soslaio e suspirou.  A ideia de que a medicina faria milagres o enchia de ódio, pois somente a religião poderia isso.

— Velho, você já está nesse jogo há muitos anos.  Não creio que depois de tudo ainda preciso ouvir algum tipo de discurso de despedida seu. — O mais velho, rancoroso e profundamente irritado, falou com rispidez.

O velho suspirou.

— Eu não chamei vocês aqui para um discurso de despedida.  Queria agradecer…

— Agradecer?  Você não tem nada a agradecer! Você nos deve é pedidos de desculpa e uma morte lenta e dolorosa.  Eu não tenho mais nada a fazer aqui — e o mais velho virou-se e pareceu que iria se retirar.  Nisso, o gordo agarrou o seu braço e o fitou de forma suplicante.

— Ele está para encontrar o criador, permita-o essas últimas palavras para que sua alma possa ficar em paz.  Você não precisa criar problemas para si mesmo impedindo-o de receber seu galardão.

O mais velho pareceu querer dizer algo, mas ficou quieto.

— O que eu estava dizendo, meus filhos e minha esperança, é que eu preciso muito agradecer vocês.  Cada um de vocês é parte de mim e reconheço em suas vidas pedaços da minha própria.  Queria agradecer por estarem aqui, do meu lado nesse momento e toda experiência que hoje, adultos, vocês conseguiram.

— Meu filho mais novo, você é o fruto de um amor impensado, de uma paixão fugaz.  Assim como o amor que te deu vida foi impensado, você também é assim, inconsequente e livre como o vento.  Você vai e volta de acordo com tua própria vontade e sua vontade não tem fim.  Sua paixão por descobrir o que há além do horizonte o leva a entender a ciência e amar o que pode ser provado e eu me vejo em seus olhos.  Você é parte de mim e através de ti minha vida e minha paixão e minha inconsequência continuou.  Queria agradecer por viver o que vivesse e ter causado os problemas que causasse.  Que essa experiência te traga plenitude.  Consigo ver-me em teus olhos brilhantes e teu cérebro vibrante.

— Pai, eu não acho que você esteja sendo justo comigo.  Posso ter escolhido coisas inconsequentes durante minha juventude, mas hoje estou buscando algo que certamente mudará o mundo e se você me ouvisse, simplesmente abrisse seus ouvidos para o que tenho a oferecer, você acreditaria em mim. — os olhos do moço ruivo encheram-se de lágrimas, sentia-se ofendido de ter seu brilhantismo confundido com inconsequência, mas não podia negar que nem sempre suas escolhas haviam sido as melhores.

Os olhos do velho focaram agora no gordo com sua pele oliva e sua cabela raspada.  Ele continuava olhando para baixo com suas mãos enlaçadas à frente de seu corpo, numa pose humilde e submissa.

— Filho, você busca a perfeição de espírito pois seu coração é de deus e sua vida é consagrada.  Invejo tua capacidade de entender o mundo e seus símbolos sagrados.  Temo que perdesse muito do que a vida poderia te ofertar, mas você também é parte de mim e gostaria de agradecer-lhe por continuar crendo quando todo o resto parecia um oceano de mentiras.  Você é meio humano e meio peixe, creio eu, para conseguir nadar nesse oceano e não se afogar.  Eu me vejo em seu coração e seus pulmões.

O gordo não moveu o corpo, não olhou para cima, não falou nada simplesmente aceitou o que lhe foi falado e continuou olhando para o chão.

O mais velho continuava de costas para a cama, fitando a porta.  Essa reunião não lhe trazia nenhum prazer.  Odiava seu pai, mas também o amava e nada podia fazer em relação à isso.  Em muitas noites imaginou-se torcendo o pescoço do velho em seu sono e tirando-lhe a pouca vida que restava nele e deliciava-se nesse pensamento.  Ele exalava ódio, raiva, mágoa e tristeza.

— Olhe para você, meu filho mais velho, minha maior esperança.  Você é o meu primogênito e creio que nunca nos entendemos direito ou falamos cara à cara.  Mas você também é parte de mim e gostaria de agradecer-lhe pelas experiências que tua vida tem te dado.  Você é em mim a força para lutar e a rebeldia contra tudo que considero injusto nesse mundo.  Eu me vejo em teu corpo e força.

— Isso é uma merda sem tamanho. — O mais velho respondeu com raiva e dirigiu-se à porta.  Segurou a maçaneta a virou, porém a porta não se mexeu. — Que merda é essa? Quem trancou essa porta.

— Creio que eu a tenha trancado, meus filhos.

Os três olharam para ele incrédulos.

— Do que você está falando, velho?  Você está na cama, não se mexeu, a não ser para olhar para nós.

— Vocês são parte de mim.  Ao criá-los, larguei mão de partes de mim que não conseguiriam ser vividas ao máximo.  Vocês não acham interessante que ao cortar um verme ao meio, ele regenera-se e transforma-se em dois indivíduos iguais, mas diferentes e conseguem viver suas próprias vidas?  É um belo simbolo esse.  Todo mundo que um indivíduo só não conseguiria aproveitar, dois indivíduos podem aproveitar melhor.  Imaginem quatro?

— O velho está louco. — os três agora estavam perto da porta e tentavam abri-la, sem sucesso.

O mais novo virou-se para o pai para perguntar-lhe o que estava acontecendo.  Sua boca abriu e permaneceu aberta enquanto o velho segurava seu pescoço com força sobre-humana.

— Cada um de vocês é parte de mim.  Cada um de vocês tem experiências que eu nunca poderia ter tido e agora é minha vez de experimentá-las.

O gordo gritou de medo enquanto o mais velho tentou dar um soco do velho que ainda parecia muito debilitado, mas agora extremamente assustador.

— O que é isso? O que está acontecendo!? — gritou o gordo, enquanto lágrimas caiam pelas bochechas rechonchudas.

O ruivo estava com pés no ar, sendo segurado pele pescoço.  Seus pés tremiam e seus olhos fitavam o teto da sala.  Com um estalo seu pescoço quebrou e sua garganta começou a gargolejar sangue.  O velho jogou o corpo sem vida no chão com violência e tocou seu filho gordo no chão que, ajoelhado e orando em voz alta, pedia clemência à seu deus  — uma cena comovente, uma imposição de mãos do pai para o filho.  Logo os dedos do velho estavam furando lentamente os globos oculares do gordo enquanto esse gritava desesperadamente.

— Tudo o que não poderia viver em uma vida só… eu não podia deixar que isso acontecesse.  Um humano só pode viver até certo tempo, só pode ter experiências até uma certa época, e, então está preso para não sentir, não buscar, não crescer.  Mas vocês me deram essa oportunidade.

Outro estalo e outro corpo cai no chão e estremece o quarto.

— Você é um monstro! O que é você?  O que está acontecendo?! — o mais velho, suando e fazendo sua bela pele negra brilhar enquanto apertava o botão de emergência do quarto.

—  Você, meu primogênito, conseguia ver que algo estava errado… mas procurou respostas em todos os lugares incorretos.  Não, não fui eu o injusto, mas você, por não dar à seu velho pai um voto de confiança.  Mas mesmo isso é importante, pois todo homem precisa lutar contra aquilo que é injusto e você me ajudou nisso.

As mãos fortes e sujas de sangue do ancião esquelético agarraram o pescoço do mais velho com força.  Um barulho contundente estremeceu o quarto quando o decrépito prendeu seu filho à parede e o levantou.  O rancoroso lutava bravamente, mas seu pai era muito forte.  Suas pernas chutavam a parede, o ar, o corpo do idoso mas nada adiantava.  A luz branca forte do quarto adquiria tons cinzas, o ar lhe fugia e luzes brilhantes amarelas e verdes tomavam conta de seu campo de visão enquanto todo o resto transformava-se em escuridão.

— Vocês me deram uma vida que não pude viver, e por isso agradeço muitíssimo.

Três corpos no chão, sangue manchava o lençol branco.  O velho abriu com os dentes a pele do mais velho, que agora apresentava o contraste vibrante do negro e do vermelho.  Com a mão buscou pelo coração, que ainda batia.  Com força, deslocou o órgão da caixa torácica e arrancou-o do tecido que o mantinha preso ao corpo.  Lentamente começou a beber o sangue que esguichava com força dos ventrículos.  Após o coração começar a bater mais lentamente, o velho começou a morder, rasgar, mastigar e engolir o que antes pertencia à seu filho.

— É doce a esperança, a raiva e o ódio que emanam do coração daquele odeia.

Logo, o velho estava sobre o gordo, buscando não um, mas dois órgãos. Os rins que filtravam as impurezas do corpo e, mais uma vez, traziam perfeição ao sangue daquele que sempre buscou a perfeição.  Com um sorriso, o ancião mordia, rasgava, mastigava e engolia com satisfação a carne esponjosa e fibrosa dos órgãos do filho que até pouco tempo pedia um milagre à seu deus.

— A perfeição é saber viver com os próprios pecados e sorrir.  Essas experiências me são muito doce.

E então, sobre o corpo sem vida do jovem adulto ruivo, o velho mordia, rasgava, mastigava e engolia o fígado daquele que um dia havia usado seu corpo e sua mente de forma inconsequente.

— A vida merece ser vivida, e o vinho mais intoxicante é aquele que se bebe em comunhão.

Já de pé, o velho — que agora era um jovem adulto sorridente, forte e cheio de esperança nos olhos — arrumou a cama e abriu a porta.  A sala, agora limpa e sem traço dos corpos dos filhos, ficava para traz.  Uma nova vida se abria, cheia de experiências para serem vividas e lugares para serem desbravados.  Agora, ele era um mais uma vez, pelo menos até que precisasse dividir-se para que o mundo continuasse sendo seu quintal e a imortalidade sua casa.

Gosto quando as gotas de chuva caem e espatifam-se sobre o pára-brisa do meu carro.  Eu sinto uma certa segurança percebendo que algumas leis são imutáveis, e que, enquanto as gotas de chuva espatifarem-se violentamente sobre o meu carro, poderei com segurança respirar e continuar vivendo sem tanta ansiedade — afinal, “isso” não mudou.  Coisas imutáveis são boas pra mim, são reconfortantes.  O fracasso, a solidão, a gravidade e a morte são imutáveis.  Me apego à elas pois qualquer outra coisa há de falhar.

Outra coisa que aparentemente nunca vai mudar é esse trânsito.  Dia após dia acordo e me apronto para o trabalho.  Pego meu carro e dirijo-me ao inferno que é o trânsito onde moro.  Certa vez uma colega de trabalho leu em uma revista que uma pessoa passa em média 2 anos de sua vida presa em avenidas e ruas indo ou voltando do serviço.  Por esse motivo eu sempre digo que tenho dois anos a menos do que tenho realmente.  Quando meus amigos mais chegados me perguntam o porquê de mentir minha idade dessa forma, justifico que o universo me rouba um tempo precioso e que, de certa forma, estou roubando-o novamente.

Mas, é claro, ninguém pode roubar do universo.

A luz dos faróis de outros carros chega à mim em fractais avermelhados depois de passar pelos prismas do vidro e de minhas lágrimas.  Apesar de estar chorando, não posso deixar de apreciar a beleza da luz difratando e multiplicando em meus olhos.  Porém, é de uma beleza fugidia, uma hora nos enche de enlevo e na outra nos enche de tristeza sem fim.  Por mais que eu queira me demorar na beleza de suas formas padronizadas, logo os pensamentos que me afligem voltam à tona e me remetem ao abismo que me encontro.  Ao abismo de memórias que persistem em continuar, enquanto tantas outras já desapareceram.

Esses fantasmas continuam me assombrando, embora já os tenha exorcizado diversas vezes.  Fantasmas de esperanças que morreram quando ainda estava na flor da idade.  Hoje, 40 anos depois, ainda lembro dessas coisas com tristeza, pois, assim como o vinho, as lágrimas e memórias tornam-se mais saborosas, mais encorpadas com o tempo.  As lágrimas me parecem mais salgadas, enquanto que as memórias adquiriram um tom sépia, artístico, que me obriga a manter os olhos fixos nelas.  Focar minha atenção em qualquer outra coisa seria rude, um insulto ao artista.  Todos sabem que não se pode insultar um artista…

Naquela época não pude aceitar o que achei um roubo.  Uma brincadeira de mal-gosto de um deus cruel, uma ironia negra do universo todo-poderoso.  Minha vida, ou o que tinha planejado para ela, havia sido roubada de mim e nunca poderia tê-la na plenitude que almejava.  Os vinte anos de uma pessoa são uma época crucial, cheia de esperanças, expectativas e inocência que simplesmente deixam de existir quando colocadas à prova na primeira dificuldade.  Foi então, naquela época, que me resignei a continuar vivendo amargamente ao invés de desistir da minha própria existência. Acreditei que essa decisão poderia trazer-me bons frutos, mesmo sem o que havia sido mais importante, mais precioso, mais santo em meus sonhos mais nobres.  Foi então que aventuras tornaram-se enfadonhas, relacionamentos tornaram-se simplesmente “mais um”, que a continuidade e segurança tornaram-se mais reais que ideias ou expectativas.

Alguém poderia perguntar-se, se ouvisse meus pensamentos (que ideia absurda), “o que significa continuar vivendo?”  Deixe-me explicar melhor.  Continuar vivendo significa fazer dos restos da vida o melhor que você pode.  É como quando o seu sapato favorito, que por algum motivo se rasga e você, numa tentativa desesperada de não perdê-lo, conserta-o com super-cola ou fita adesiva.  Você começa a caminhar com eles e sabe que não é a mesma coisa.  Seus pés reclamam, seus olhos reclamam, seu coração reclama, mas você não pode desistir do sapato.  Ele foi importante pra ti por qualquer motivo que seja e desistir dele é perder parte de si.  O problema é que sonhos, expectativas, ou vida são mais importantes que sapatos.  Você continua vivendo uma vida quebrada e todos à sua volta conseguem perceber que ela foi remendada às pressas, sem jeito.  Você dá um sorriso amarelo, finge que não há nada errado e vai levando.  E quando percebe, não há mais tempo e sua história foi construída num remendo mal-feito, em meio a risadas e conversas falsas, em frustrações desnecessárias.

É por isso que a constância da chuva, do trânsito, da tristeza me traz segurança.  Sou uma pessoa mais segura agora, creio eu.  Criei para mim uma vida confortável, mas perdi o sonho.  E então choro.  O que mais posso fazer por mim?  Talvez devesse me aventurar, ter o que chamam de crise de meia-idade, mas mesmo para isso me sinto fora de idade.  É uma sensação cruel sentir-me assim, sem saída. Me perco na difícil escolha de mudar e buscar algo que há muito perdi, ou continuar o mesmo e me manter seguro na estabilidade da vida que construí, embora não seja a que eu tanto desejei.  Me perco um pouco no tempo e admiro a beleza da luz do farol, vermelha em seus fachos fractais direcionando raios multicoloridos para fora de seu foco e me sinto menos engolfado em depressão.  A beleza da luz é tanta que mal percebo que meu pé pisa de leve o acelerador e me leva em direção ao cruzamento.

Agora não sei se gosto das gotas de chuva caindo sobre mim.  Elas são pesadas sobre os cortes e ferimentos, e lavam o sangue que teima em continuar saindo.  Claro, o universo é assim, um irônico brincalhão.  Não só me tirou os motivos para viver, como também me tirou uma possibilidade de segurança e o prazer de ver, pela última vez, luz espalhando-se em várias direções.  Eu escuto ao longe barulhos fortes e gritos, mas já mal sinto minhas mãos, pernas e pés.  Vejo as pessoas correndo na direção do meu carro, mas suas vozes parecem tornar-se mais distantes, como se estivessem indo na direção contrária.  Olho para o para-brisa e, agora meio aberto e meio estilhaçado, consigo ver perfeitamente a luz do farol mudando para verde, sem fachos, sem beleza, somente lâmpadas indicando que o caminho está livre.  O caminho realmente nunca esteve mais livre.  Esse universo, esse deus… como brinca comigo… e tudo que eu queria era…

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O que Fazer Quando Sufocar

É uma caixa.  Certamente é uma caixa.  Pelo menos não tem aparência de qualquer outra coisa desde o momento que acordei aqui.  As fissuras retas, lembrando rachaduras,  estendem-se acima e abaixo no centro das faces desse local onde me encontro.  Não entendo o material dessa caixa tão grande, pois já chutei, soquei, mordi, me joguei contra ela e nada, nada acontece.  Sei que não é concreto pois ao toque demontra uma suavidade intrigante, parece mais com papel, mas um papel muito mais resistente que qualquer outro.  Olho pelas fissuras no chão, estendo meu braço por entre elas, grito e sei que existe uma saída, mas essa está longe demais para que eu a alcance.  Talvez por esse motivo ainda respire, existe uma saída nessas fissuras — que, permitam-me dizer, não são portas e se tivessem algum tipo de mecanismo ou botão que as abrissem eu já as teria descoberto — por onde entre algum ar.

Estou sentado no canto mais distante de onde faço minhas necessidades.  Quanto tempo estou aqui?  Não consigo ver a fonte de luz, mas certamente esse local é iluminado, eu acho. Talvez tenha estado no escuro por tanto tempo que minha visão se acostumou à ela.  Às vezes creio que escuto vozes, distantes porém de todas as direções.  Vozes que me soam familiares e outras que simplesmente nunca ouvi antes.  Algumas dizem para que tenha esperança, outras me culpam por coisas que não lembro ter feito, e dessa maneira, meu tempo (posso dizer dias e noites? creio que não) passa arrastando-se, deixando-me mais confuso e mais preso à essa caixa.

Os piores momentos são quando tento me lembrar do que havia fora da caixa.  Há vultos que mostram sorrisos tão convidativos, como me chamando para abraçá-los, porém quando olho pra cima eles giram e fogem do foco de minha visão — você conhece a sensação, é como quando você tenta ver pedaços de poeira flutuando em seus olhos, visíveis somente quando você não foca a visão diretamente sobre eles, mas que quando você foca sobre eles, esses escorregam para o outro lado parecendo uma eterna brincadeira de pega-pega.  Há ocasiões em que quase sinto como se estivesse lembrando algo importante, para, de repente, sentir toda a torrente de lembranças esvaziando novamente e perdendo-se mais uma vez, mais profundamente, dentro de mim.

No começo chorei, gritei, me desesperei.  Falava comigo mesmo tentando manter algum tipo de sanidade.  Busquei à Deus, afinal, ele responde nossas orações.  Foi isso que me ensinaram pelo menos.  À mim não respondeu.  Quer dizer, creio que algumas vezes respondeu, mas agora, na caixa, só consigo ouvir o nada e no máximo sentir como se ele desse um sorrisinho irônico e perguntasse “E agora, quem ganhou?”

Me esqueci quem sou ou como pareço.  No começo, quando acordei sozinho e sem memórias, a única peça de mobília na caixa era um espelho pequeno (Como que  sei o que é um espelho? Será que já tive um antes?).  No começo me olhava e perguntava se havia alguém atrás dele.  Conversava comigo mesmo até que um dia, num arroubo de desespero o quebrei.  O que havia por trás do espelho?  Mais da mesma caixa.  Mais do mesmo material sufocante, que deixa o ar estéril, viciado, mas que me permite respirar.

Se eu pudesse eu desapareceria, me mataria.  Porém, não sei se intencionalmente ou por acaso, não existe nada nessa caixa com a qual eu possa fazer tal coisa.  Por isso nos último tempos sento aqui nesse canto.  Não como nada desde que entrei aqui, parece que meu corpo não precisa de comida mas ironicamente continuo sendo humano o bastante para precisar ir ao banheiro — ou o outro lado da caixa onde me encontro que agora encontra-se mortalmente suja.  Tentei ficar doente comendo minhas próprias fezes para que dessa maneira a infecção e a doença me tirassem dessa situação, mas aparentemente isso também me foi negado.

O que eu posso fazer, quando estou preso numa caixa e não posso correr para direção alguma, não recebo resposta alguma e nem mesmo lembro de quem eu seja?  Como posso continuar existindo se tudo que caracteriza minha existência não faz sentido algum.  O pior são as vozes, vozes bondosas que pedem para que eu continue e outras maldosas que me acusam e me dizem ser a causa de sua infelicidade.  Eu respondo para as bondosas com perguntas sobre como poderia continuar sendo tão miserável mas elas nunca respondem.  Eu respondo para as maldosas com perguntas sobre o que faço de tão ruim para merecer tal punição, que não lembro dos motivos para estar preso sem respostas,  que mereço algum tipo de libertação, mas, elas também ficam silenciosas após minhas perguntas.

E assim continuo.  Sem saída, sem apoio, sem liberdade, sem futuro nem passado e para sempre preso em uma caixa impossível de ser violada.  E assim continuo sem respostas, sem esperanças, sem preocupações além de sentir pena de mim mesmo pela situação à qual me encontro.  E nada vai mudar, afinal, é tudo o que conheço.  No final, se talvez houvesse realmente algo fora da caixa, será que eu conseguiria sair daqui e voltar a viver normalmente nesse mundo que consigo me lembrar somente através de sombras e vultos?  Talvez seja melhor continuar aqui, miserável, do que descobrir que a esperança que tanto anseio seja tão miserável quanto essa caixa.  E assim continuo.  Dentro do que certamente é uma caixa.  É, é uma caixa…Imagem

Pulling the Trigger

Once more I screwed it all.  I screwed it all when all I wanted was to make it work, make it strong and bring forth fruit and happiness.  But that’s who I am.  I can’t change my nature, can I?  I can’t be happy, can I?

In the past I screwed it all for being born a different way.

Now I screwed it all for being a fool.

I guess this is it… For what reason do I pull the trigger on my own happiness?  For what reason am I scared of those that little harm can do to me?

How can I change? How can I forget? How can I disappear out of myself, my memory and history?
I wish I had died that day.

Passo a noite em claro mas não por nervosismo ou ansiedade. Também não é por briga ou enganos.  Me vejo agora e me comparo à quem eu era ano passado e há dois atrás.

Antes vivia acordado por medo, brigas, ansiedades e era miserável.

Hoje vivo acordado por puro prazer, deleite, amor e felicidade.

E também por medo que o tempo passe rápido demais.

Como?

How can I forget your love?
How can I never see you again?
There’s a time and place
For one more sweet embrace
And is time, ooh
when it all, ooh
Went wrong
I guess you know by now
That we will meet again somehow

Oh baby
How can I begin again?
How can I try to love someone new?
Someone who isn’t you
How can our love be true?
When I’m not, ooh
I’m not over you

I guess you know by now
That we will meet again somehow

Time can come and take away the pain
But I just want my memories to remain
To see your face
To hear your voice
There’s not one moment I’d erase
You are a guest here now

So baby
How can I forget your love?
How can I never see you again?
How can I ever know why some stay and others go?
When I don’t, ooh
I don’t want you to go

I guess I know by now
That we will meet again somehow

Time can come and wash away the pain
But I just want my mind to stay the same
To hear your voice
To see your face
There’s not one moment I’d erase
You are a guest here now

So baby
How can I forget your love?
How can I never see you again?